Praticar uma das ar- tes marciais existentes é um desejo de considerável parcela da sociedade. Entretanto, do sonho para a realidade existe uma grande barreira. Superar esta barreira talvez seja um dos principais desafios preconizados pelas artes marciais orientais, que é vencer o nosso inimigo interno. É o que chamamos de vencer a si mesmo, vencer nossas fraquezas e nossas dificuldades.
Os treinamentos visam, em um primeiro momento, conhecer nossos limites e nossas potencialidades, típicas de cada físico e de cada mente. Depois de ultrapassar a primeira barreira e entrar em uma boa academia, podemos dizer que o aluno, ao conseguir fazer suas flexões de braço corretamente, ao terminar uma série com dezenas de flexões abdominais estará vencendo alguns desafios que, na prática, além do benefício óbvio quando realizados corretamente e coordenados por um profissional da área, trará uma satisfação ímpar pela conquista evidente.
O bom praticante de artes marciais se compara consigo mesmo e não com os campeões; o aluno deve ser melhor hoje do que ele foi ontem e assim por diante, sempre melhorando até entendermos que há um paradoxo: procuramos uma perfeição que nunca alcançaremos.
No caso específico do Karatê, a satisfação está em conseguir fazer uma defesa, em aplicar um golpe com a técnica correta ou, ainda, em realizar um katá (seqüência de movimentos criados pelos antigos mestres) de forma correta e sem esquecer nenhum dos seus movimentos, bases e técnicas. Com o passar do tempo, o treinamento passa a ser mais vigoroso e repetitivo. Nesta fase ocorre o maior número de desistências, pois poucas pessoas entendem aquilo que dizia o filósofo grego Aristóteles: ‘Só fazemos melhor aquilo que repetidamente insistimos em melhorar. A busca da excelência não deve ser um objetivo e, sim, um hábito’. E olha que ele nem era praticante de artes marciais.
Outra virtude das artes marciais, principalmente nos dias de hoje, é o fato de evidenciarmos a organização das aulas, a disciplina dos alunos, o respeito no trato com o Sensei (professor) e demais companheiros de treino.
Até pode soar estranho, mas em uma aula genuína de artes marciais o professor não precisa pedir silêncio aos alunos em momento algum, eles simplesmente escutam e refletem sobre aquilo que o mestre analisa e, se quiserem perguntar, levantam a mão e esperam a vez. Simples assim, e funciona há centenas de anos!
Davi Rodrigues Poit é professor universitário titular na ESEF e convidado na FGV-FAAP-UGF, doutor em Educação PUC-SP, faixa preta de Karatê 5o Dan e proprietário da Academia AJK