A criança sobrecarregada e a agressividade
Luci Mara Marin

Muito se fala e se escreve sobre a agressividade infantil e a imposição de limites por parte de pais e educadores. Já sabemos que o comportamento agressivo manifestado pelas crianças pequenas está, na ausência da psicopatologia, relacionado à ausência de limites e/ou à inconsistência destes, haja visto o sucesso dos programas de TV no estilo Super Nanny. O que precisa ser feito já sabemos; nosso objetivo aqui é a compreensão do sentido, do porquê as crianças necessitam da imposição dos limites.

Fazendo uso da teoria desenvolvida por Donald Winnicott, psicanalista britânico com ampla vivência em pediatria, podemos ensaiar as respostas. Em primeiro lugar, vale ressaltar que a agressividade infantil representa a dramatização de uma realidade interior, geralmente perturbadora demais para ser tolerada, ou seja, impulsos e fantasias característicos do psiquismo humano que necessitam ser expressos pela criança e tolerados pelo ambiente. Pensando na natureza humana, observamos a extrema dependência de um bebê em relação aos cuidados maternos, as aquisições que indicam autonomia e independência demoram a chegar... a locomoção, o controle dos esfíncteres, a fala, o auto-cuidado... Do mesmo modo, o desenvolvimento emocional requer cuidados para que estabeleça o seu curso. Dentre eles, a estabilidade do ambiente exerce importante papel, assim, os limites adequadamente apresentados (o adulto é o responsável e quem dita as regras) promovem segurança e permitem que a criança pequena coloque para fora seus impulsos agressivos sentindo-se amparada e protegida por um adulto. Deixar sob responsabilidade da criança o controle de seu próprio destino, permitindo escolhas prematuras, tende a deixá-la confusa e insegura. Uma criança sobrecarregada com responsabilidades geralmente se torna agressiva, sendo este comportamento sinal de uma confusão interna insuportável para a mente em desenvolvimento.

Pais modernos, preocupados em não se mostrar autoritários, deixam de exercer a autoridade que lhes cabe, apresentando às crianças pequenas numerosas alternativas: o que comer, onde ir passear, a que horas dormir e acordar, entre outras. O que parece democrático aos olhos de um adulto, pode ser sentido como cruel por uma criança. A ausência de uma autoridade firme também pode causar ansiedade e medo na criança.
Ouvimos muitos adultos maduros contarem que, em sua época, bastava olhar nos olhos dos pais para saber o que queriam dizer. Hoje, quantas de nossas crianças olham nos olhos de seus pais e vêem um ponto de interrogação, um vazio... Mesmo um adulto não ficaria confuso e inseguro?

Luci Mara Marin é psicóloga,
doutoranda em Psicologia Clínica pela USP (11-4523-0294, maramarin@usp.br)