Dr. José Antonio de Oliveira
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Dr. José Antonio de Oliveira é psicólogo junguiano.
(11-4586-7545, junguiano@saudepsi.com.br)
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Não somos nós que temos o complexo; é o complexo que nos tem”. Esta verdade dita por Carl G. Jung revela uma dimensão do ser humano da qual não nos damos conta. Quando uma pessoa é ‘dominada’ por um complexo, ela fica fora de si, tem atitudes que não compreende. E quando volta à realidade, diz: “o que foi que eu fiz?”. Jung criou o termo ‘complexo’ e foi quem melhor os estudou e descreveu, tanto que a Psicologia Junguiana pode bem ser chamada de Psicologia Complexa ou dos Complexos.
Neste artigo abordo um complexo específico, o famoso Complexo de Édipo, dentro de uma visão junguiana e amplificando-o para nossa realidade. Os junguianos diferem de outras correntes psicológicas quanto à interpretação simbólica desse mito. A leitura inicial feita por Sigmund Freud é a de ‘Édipo que mata o pai, Laio’ (sem saber de sua filiação e, portanto, de que era também filho de Jocasta). Com isso, o Oráculo da Esfinge se realiza: ‘o filho mata o pai, para ficar com sua esposa (e também mãe)’.
Entretanto, os junguianos tomam o mito num sentido amplificado, lendo-o desde seu início. Assim, temos que antes do parricídio, temos o ‘infanticídio’! Sim, o pai matando o filho. No mito de Édipo, quando Laio é advertido pelo Oráculo de que ele seria morto pelo filho, o qual tomaria a própria mãe como esposa, Laio (o pai) abandona o filho à própria sorte, para com isso evitar que a profecia se realizasse. Diante do mito, temos algumas indagações: estaríamos falando que temos um “destino ou pré-destino”? É possível fugir do próprio destino? O homem pode ou não interferir na sua história (pessoal e coletiva)?
Como disse Jung, “somos seres mitológicos”, ou seja, vivemos mitos. Os mesmos mitos que foram descritos pelos gregos há 2.500/3.000 anos e que sobrevivem até hoje, o que significa que pode, sim, haver uma predestinação na nossa existência. No entanto, existem inúmeros mitos que mostram que, se determinadas tarefas forem cumpridas, a profecia pode não se realizar.
Com as idéias até aqui expostas, pretendo uma explicação para o que tem sido muito veiculado pela imprensa nas últimas semanas (mas que sempre ocorreu na humanidade). Falo de notícias dizendo de pais jogando filha do prédio, de mãe espancando filhos, de babás maltratando crianças, de cuidadores (incluem-se todos os profissionais com uma atividade mais específica no cuidar) que não cumprem seu papel e de uma sociedade (pátria-mãe?!) que não cuida bem de seus membros.
Antes de uma pessoa tornar-se um agressor, marginal, assassino, alguém que não cumpre as normas e regras sociais e de respeito pelo outro ser humano, muito provavelmente, ela terá sido uma criança ‘filha do abandono’, não cuidada, deixada ao ‘Deus dará’. Um exemplo: hoje é necessário (?) que pai e mãe trabalhem (e muito) para criarem os filhos (mesmo que seja somente um). Saem para trabalhar antes do sol nascer e retornam quando já anoiteceu. Assim, a criança fica aos cuidados de ‘estranhos’ (pessoas que não são o pai, a mãe ou, no máximo, os parentes mais próximos). Tais cuidadores, por mais que se esforcem e estejam preparados, nunca vão substituir um pai ou uma mãe. Faltará para a criança o ‘exemplo’. Exemplo é o melhor remédio. Que exemplo nossas crianças estão tendo? O de serem abandonadas (a despeito da ausência dos pais ocorrer para o sustento e para suprir as necessidades básicas da criança, ou como forma de obter bens para a criança e ‘compensar o sentimento de abandono’).
Estamos dominados pelo complexo. Por isso, em 2008, ainda vivemos o mito de Édipo. Logicamente que não ao pé da letra, mas em sua essência, qual seja, o abandono, a morte do filho para a própria salvação da consciência (de ser um bom pai ou uma boa mãe!?). Como podemos mudar isso?