Lannoy Dorin
A imitação é uma tendência natural. Podemos encontrá-la em várias espécies animais, inclusive a humana. Aprendemos quem e o quê imitar, o pai, a mãe, os irmãos ou outra pessoa neste ou naquele gesto, maneira de falar, emoção, sentimento, crença etc. Mas, é claro, à medida que nos desenvolvemos, podemos nos libertar em boa parte dessas personificações, da introjeção da personalidade de outras pessoas na nossa.
Se tivermos experiências de vida, um certo conhecimento e vontade de sermos independentes, podemos nos livrar da imitação, do que chamam de “macaquice”. E essa independência serve como atestado de nossa maturidade. Ou seja, no chamado processo de individuação, temos que deixar distante o ser criança, sem matá-la no nosso íntimo, pois o belo da criança é a naturalidade, a espontaneidade e a sinceridade.
O indivíduo que não atingiu a maturidade vive na dependência do outro, para explorá-lo ou servi-lo como escravo. Evidentemente, a maioria da população vive para amar, adorar, idolatrar e imitar as idéias e comportamentos daqueles aos quais fica presa, como uma criança que admira e quer ser como os mais velhos que ela. Em suma, o imaturo é incapaz de ser ele mesmo sem copiar certas pessoas e odiar outras. Seu cérebro funciona na base de 0 e 1, isto é, dividindo tudo em termos de bom ou mau, certo ou errado, belo ou feio etc. Assim, não se sente feliz se não tiver como referência a infelicidade do outro, tido como inimigo. Nada o deixa mais contente, alegre, do que a desgraça alheia, o infortúnio de quem ele aprendeu a não imitar, mas sim a evitar, detestar, repudiar.
Nada melhor para se comprovar o que acima expusemos do que o comportamento do torcedor de um time de futebol em relação a outro de um clube adversário. Ele vibra mais com a derrota do rival do que com a vitória da equipe do seu coração.
Assim, analisando a conduta das torcidas de times de futebol, descobrimos que estamos muito longe do ideal de considerarmos todos os humanos como irmãos. Muito ao contrário e contrariando o que se vê no reino animal, o homem é o grande inimigo do homem. Ele vive para imitar os que se acham acima dele e pisar nos que estão embaixo. E isto é tão verdadeiro que a TV e o comércio exploram essa fraqueza humana: é preciso imitar e comprar o que “os de cima” compram, para viver da ilusão de ser igual aos ídolos.
A realidade, porém, revela a verdade “verdadeira”: o imitador imita seu ídolo comprando uma geladeira, mas nada tem para guardar nela. Da mesma forma, compra um automóvel a prestação, sem pensar que não tem dinheiro para lotar o tanque ou pagar a oficina, no caso de quebra do carro.
A imitação é uma irmã gêmea da mania de grandeza, uma “doença” específica dos imaturos, dos vazios, dos espiritualmente pobres, os que comem manjuba e querem arrotar como os que degustam caviar.
Lannoy Dorin é autor de diversas obras sobre psicologia, educação,
pedagogia, romance, entre outros.