Onde foi parar a humanidade do ser humano?

    Carla Zanoletti

    Lidar com pessoas é muito interessante, não só na área da psicologia, como em todas as áreas profissionais. Mas a cada dia que passa, me surpreendo mais com o ser humano que, a meu ver, está se tornando perigosamente menos humano na sua suposta evolução.

    Já vi e ouvi muitas coisas bizarras em relação ao comportamento humano, mas um tempo atrás duas notícias tiveram bastante destaque na mídia e causaram muita indignação nas pessoas.

    A primeira era de uma mãe que degolou os dois filhos (um de 6 anos e o outro de 1 ano e 7 meses, se não me engano). Essa notícia chocou não só a mim como a toda uma comunidade, pois as vítimas eram crianças e a própria mãe foi o cruel algoz!

    A segunda era de uma mãe que abandonou a filha de apenas 3 meses em uma lagoa em Belo Horizonte, dentro de um saco de lixo. E ainda chamou a filha de “droga” quando deu uma entrevista! Graças a Deus, sem dúvida, e a pessoas que estavam passando pelo local, o bebê foi resgatado com vida.

    Muitos pacientes trouxeram estes assuntos na terapia, e mostraram-se de-sesperançosos em relação ao ser humano. Perguntavam: “Onde esse mundo vai parar? Como isso pode acontecer? Ainda vale a pena viver neste mundo? Este mundo está perdido de vez?”

    Percebi que esses fatos (não desprezando muitos outros da história da humanidade) causaram uma comoção muito grande nas pessoas e uma sensação muito grande de não pertencer à nossa raça, que se chama raça ‘humana’...

    A sensação que tenho às vezes é que o ser humano está passando por um processo de autodestruição, mas que ainda não se deu conta disso. Violência, drogas, cigarro, bebidas, doenças infecto-contagiosas, guerras e por aí afora...

    Desde as mais remotas épocas convivemos com os mais diversos transtornos psiquiátricos (doenças mentais) e dependências químicas, que muitas vezes transforma o ser humano em tudo, menos humano.

    Porém, existe uma diferença muito grande entre uma pessoa que tem uma doença mental – que a tira da realidade e às vezes faz com que ela aja de uma maneira desumana – e uma pessoa que dentro dos parâmetros da psiquiatria é ”normal”, mas age de uma maneira desumana conscientemente. A falta de consciência (surto psicótico, por exemplo) implica a falta de responsabilidade pelos atos cometidos; caso contrário, é falta de outra coisa muito mais séria. Algo que realmente pode vir a comprometer nossas vidas e a de nossos descendentes, que é a HUMANIDADE.

    Muitas vezes usa-se até o falso diagnóstico de doença mental para justificar atos injustificáveis. Isto é muito grave! Transpõe-se, sem a menor cerimônia e escrúpulo, o limite entre o certo e o errado.

    O bem e o mal sempre estiveram presentes dentro do ser humano, mas ultimamente a impressão quem tenho é que o ‘mau-caratismo’ vem crescendo, e o pior: começa cada vez mais cedo.

    Como psicóloga e estudiosa do comportamento humano, observo todo tipo de comportamentos, inclusive os mais inadequados nas pessoas. Infelizmente, muitas vezes somos obrigados a conviver com situações e pessoas que diferem bastante de nosso modo de ser...

    E o que fazer para não sermos contaminados por essas situações e pessoas? Enquanto mantivermos nossa integridade, honestidade, bom caráter, e seguirmos a velha e boa educação de nossos pais (tendo-os como pessoas de bem, é claro), sempre haverá um modelo para ser seguido.

    Carla Zanoletti é psicóloga (4497-0849)