A arte e o aprendiz

Artur

    O artista é antes de tudo um buscador da verdade

À medida que a alma se exprime por nosso intermédio, a vida externa se torna de fato criativa. Mas, antes disso, vivemos fases preparatórias em que lampejos eventuais de genuína criatividade ocorrem por obra da Graça.

Nessas fases em que as forças psicológicas vão se organizando, amadurecendo e se alinhando com toda a alma, as chamadas atividades artísticas são especialmente indicadas. Propiciam o aquietamento e a elevação de pensamentos e emoções. Com delicadeza, exigem disciplina externa e favorecem a educação básica da personalidade. Aparelham os corpos para que sementes evolutivas germinem, cresçam e dêem frutos. Enobrecem e sutilizam a sensibilidade. Realizadas com atitude correta, tais atividades são oferta que fazemos ao mundo interno para um dia servir como canais de suas energias.

A manifestação da arte, porém, é algo muito mais amplo e não controlado pelo querer externo. Acontece de modo misterioso quando o pequeno ‘eu’ cede lugar ao Ser. A obra nasce então espontânea, não concebida por labor humano. O artista é fecundado pelo poder criativo da Idéia que busca se expressar por seu intermédio. A partir daí, ele molda, nos níveis materiais, a beleza, a harmonia e o equilíbrio.

Beleza, harmonia e equilíbrio são atributos universais que podem se projetar na existência concreta. A verdadeira arte e o verdadeiro artista estão imbuídos dessas leis. Por isso, transformam os seres e o mundo segundo padrões superiores. A obra não visa confirmar meros estados humanos, mas elevá-los e curá-los. Não almeja valorizar os operadores, mas revelar estados de consciência impessoais e abrangentes.

Núcleos de formação artística sempre foram vitais no desenvolvimento de um povo ou uma civilização. Podem promover a retidão de caráter, refinar sentimentos e pensamentos, estimular a doação de si a um bem maior, fortalecer a aspiração ao mundo superior e a reverência pela verdade. Tudo isso constrói no ser bases seguras para realidades interiores virem à tona com pureza. O contato cada vez mais próximo com as vibrações sutis dos sons, das cores e das formas vai preparando os aprendizes para criarem em sintonia com o Plano Evolutivo.

É claro que um núcleo de formação desse nível demanda a presença de monitores que vivam tal processo de crescimento e estejam alinhados com o seu propósito em certo grau. Podemos atrair essa preciosa possibilidade orientando-nos nesse sentido.

O autêntico artista é, antes de tudo, um buscador da verdade. Reconhece-se como eterno aprendiz, sempre pronto a se esquecer de si e a doar ao mundo tudo o que do Alto venha a receber. Afinal, como indica um antigo livro, “quando o pequeno se afasta, o Grande se aproxima”. Tal é a lei.

Artur é membro do Conselho e da coordenação de Figueira