Dr. Paulo A. Junqueira
Uma sala de aula com 30 alunos, provavelmente exista
uma criança com Déficit de Atenção/Hiperatividade
[TDAH]. A necessidade de ficar quieto, permanecer sentado e prestar
atenção é uma condição realmente
difícil para estas crianças.
 |
|
Paulo A. Junqueira – Neurologia
da infância e adolescência. |
A desorganização, a dificuldade em filtrar
os estímulos, em modular e inibir o comportamento colocam a
criança em um grande risco para dificuldades escolares em termos
do desempenho acadêmico e interações sociais com
seus pares. O comportamento do aluno é desigual; imprevisível
e não reativo às intervenções normais
do professor. Isto, muitas vezes, leva a interpretar o comportamento
da criança como desobediente, com aparente desinteresse ou
apatia.
O diagnóstico é menos comum nas meninas, porque muitas
vezes elas apresentam somente problemas de atenção sem
hiperativi-dade, menos visíveis do que os problemas de controle
de impulsos e atividade. O que normalmente faz a família procurar
um médico são os problemas com a agitação
e a inquietação típica dos garotos.
Estes sintomas devem ocorrer em um grau mal-adaptativo e persistente,
causando claros prejuízos no desempenho escolar, no relacionamento
interpessoal e na auto-estima. Existem poucos temas que tenham despertado
tanto interesse como o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade.
Estudos epide-miológicos estimaram consistentemente uma prevalência
de 5% de crianças em idade escolar, demonstrando ser um grande
desafio para o sistema educacional.
Mais de 30% das crianças repetem uma série escolar e
até 56% necessitam supervisão pedagógica especial;
o risco de fracasso escolar é duas a três vezes maior
do que outra criança sem dificuldades escolares, mas com inteligência
equivalente; o custo educacional é 3 a 6 maior; comparando
os índices de repetências, suspensões e expulsões
escolares entre alunos com TDAH e seus pares controles verificou-se
uma incidência significativamente maior nos adolescentes portadores
do transtorno.
Este funcionamento abaixo do potencial pode acarretar ao longo do
tempo uma seqüência de eventos denominada “Espiral
Escolar Negativa” ou seja, trocas seguidas de escola, após
repetências ou dificuldades disciplinares, geralmente indo,
a cada troca, para colégios com menor “calibre”,
e que concentram uma maior prevalência de alunos com TDAH.
O aluno inicia em uma escola particular, passa para um colégio
público após repetir de ano, geralmente fica de dependência
no 2o grau, adquire aversão à escola, demonstra não
gostar de estudar, tendo como desfecho final uma escolaridade mais
baixa na vida adulta.
Mas isto pode ser potencialmente prevenível, se for tratado
desde o início. Não tratado pode levar, além
do baixo desempenho acadêmico, à limitada qualificação
ocupacional e ao aumento de risco de abuso de drogas e de delinqüência.
Em virtude de sua prevalência, persistência, do comprometimento
funcional e da natureza complexa de seu tratamento, o TDAH tem grande
impacto para as crianças afetadas, suas famílias, para
os sistemas de saúde e educação e para a sociedade
como um todo. Pais de crianças assim têm alto grau de
estresse, culpa, isolamento social, depressão e divergências
conjugais.
O TDAH representa um dos poucos distúrbios do desenvolvimento
para os quais há uma intervenção médica
eficaz. O tratamento medicamentoso associado à psicoterapia
e à assistência acadêmica mostrou-se mais eficaz
do que outras formas de tratamento. Os estimulantes funcionam bem:
as crianças conseguem pensar mais claramente e decidir mais
coisas.
Infelizmente, mesmo com toda a informação agora disponível
sobre o TDAH, ainda há uma série de equívocos
e diagnósticos imprecisos impedindo que a maioria das crianças
alcance melhor qualidade de vida, uma vida mais feliz e mais produtiva.
Além disso, histórias denunciando o diagnóstico
excessivo e o uso indevido de medicamentos perigosos para tratá-lo
continuam a aparecer na televisão, na internet e na imprensa
leiga, criando mitos e muita controvérsia sobre o tema.
Nosso dever como pais e profissionais é compreender essas crianças
e encontrar formas para ajudá-las a serem bem-sucedidas.